O homem-ponte

na família, era o diplomata
escutando, conciliando, aproximando

na profissão, corajoso
saltava do caminhão em movimento,
arriscava-se coletando as embalagens
enfrentando latidos, vidros partidos
noites frias, chuvosas
mormaços de verão
barulhos no caminhão
odores avessos da civilização

homem forte
pra família voltava
e era acolhido por fisionomias amorosas
seus entes queridos
recompensa de todas as viagens
era estar com eles mais um momento

na tarde seguinte
lá se ia o homem-ponte
continuar sua missão ganha-pão
e garantia com seu esforço
uma cidade mais limpa
o reaproveitamento do metal
vidro, plástico, papel

a realidade que conhecia
no lixão
sempre lhe partia
o coração
mulheres, crianças
pessoas, urubus
a procurar o sustento
nos avessos da civilização

o homem-ponte
unia os extremos
entre eles ia e vinha
equilibrava as realidades opostas
carregando em suas costas
os avessos da civilização

Onde ? (poeminha à margem)

Ia escrever um verso,
sumiu...
Ia enviar um recado,
evaporou...
Ia fotografar o pássaro,
voou...
Pensamento em alhos,
manifestaram-se bugalhos...

Era tempo de silêncio.

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