Mostrou com maior clareza
Milhões com chaga, malária,
Ankilostomose, fraqueza,
Que só levaram ao povo
Miséria, atraso, pobreza.

Então o grande escritor
Compenetrado, por fim,
Ao analisar os dois lados
Do Jeca, o bom e o ruim,
Concluiu que o caboclo
“Não é assim, está assim.”

Sem ter receios de errar
Sob este teto de anil,
Digo com convicção
Que, retratado o perfil,
O infeliz Jeca Tatu
Tem a cara do Brasil.

Brasil que grassa apático
Pelo seu braço cruzado,
Brasil caboclo onde sofre
Um povo hospitalizado,
Brasil análfa que vota
Subserviente e errado.

Esse imenso contingente
De jecas, sempre atuais,

Encurralados, sofrendo,
As mazelas sociais
Estão nas filas de emprego
Ou nos leitos de hospitais.

 

MANCHETES
Bruno Ramalho - Ribeirão Preto/SP

Qualquer coisa, em vida, que se diga
pode mesmo apresentar-se em paradoxo:
pode a paz subitamente se ver briga
e o que é lógico, fato ora desconexo.

Como nada mais rotula-se ortodoxo,
tudo venera o que o desejo instiga
e quem sem entrega, suscetível à fadiga,
que nunca ouse, então, discutir o processo.

Qualquer verdade hoje sucumbe à mentira.
Depende só do preço que se paga.
Apedreja-nos a mão que nos afaga
como nos disse o poeta, outrora, em lira.

Como é cego o olho que nos gasta a mira
e é opaca a moral que nos estraga,
resta aos servos a realidade paga
que a tecnologia impõe e tira.

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