O piloto
O capitão é carrancudo, brigão , antipático e calado
Não agrada com sorrisos os passageiros que transporta
Não conversa com colegas , não tem novos amigos
Seus assuntos são os mesmos, seus problemas são antigos.
Não confia nas pessoas, não divide suas incertezas, seus segredos
Confia só nas máquinas , de preferência as que voam
Como todos os mortais tem seus temores tem seus medos
Muito habilidoso em sua arte, em sua crença,
Fez da aviação sua profissão e seu negócio
Fez dela a razão de sua existência, fez dela seu sacerdócio
Sabe que estas vidas que aqui circulam,
Mais cedo ou mais tarde na campa terminam,
Tem muito cuidado com a rápida chegada ao chão,
Fez da competência sua religião.
Mas o incerto é quase certeza em tudo e a máquina falha
E os macios flocos de nuvens brancas abaixo
Podem esconder perigos finais para aquela gente
Transportada por aquele piloto silencioso e desconhecido
Não pode mais esperar e toma a decisão
Vai furar aquele lindo mar branco sem saber o que lhe espera
Uns reclamaram muito... outros reclamaram pouco
Mas todos diziam : ” aquele ali é um louco ”
O que teria êle pensado ? Na esposa querida que já se fora,
Em seu pequeno filho que o esperava,
Que como se, com sua minúscula mão esticada,
Tentava agarrá-lo a todo custo e assim trazê-lo para casa
Pois pensava também, em uma outra forma de sentir a dor,
Na relação espiritual e inevitável com aquelas vítimas
Ainda vivas, que transportava,
Cujas almas ascendentes gritavam, caladas, de pavor.
No final, bastava um gesto para traz no manche e estava salvo
Mas condenou-se, empurrando para frente aquela mortal alavanca
Como que auxiliando a foice da morte, o monstro avança,
A ceifar desta terra, a sua própria existência naquela final dança.
A bela aeronave não mais podia auxiliar, está muito ferida e irada
Êle não tenta mais salvar da destruição o avião e sua própria vida
E todo gesto heróico é solitário, a decisão esta tomada
O comando é acionado, o imenso veículo cor de prata, levita,
Procura o pequeno monte logo adiante
Esconde nela o gesto nobre do bravo condutor
A frente do avião se enterra e se espatifa
A fuselagem repleta de vidas se preserva.
A poeira se dispersa ... as vidas são reencontradas
Que bom que todos se salvaram , as vidas conservadas !
Onde êle está ? Vamos achá-lo e abraçá-lo de qualquer maneira
Vamos cumprimentar aquele sempre simpático e bravo piloto
Mas alguém tremula no meio da poeira:
“O capitão está morto !”
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Edgard Thomas Martins
edgard@upe.poli.br - Recife/PE